Revidado e postado em 20/06/2012

A marginalização do estudo bíblico

Elohim (Deus) existe? Quem é Elohim? Onde Elohim está? Para onde vou após a morte? Existe céu? Existe inferno? Devo crer na Bíblia como a Palavra de YHWH?

     Todos que algum dia já se detiveram na reflexão destas simples, mas inquietantes interrogações, experimentaram, ainda que inconscientemente, momentos de meditações teológicas, pois a teologia é uma matéria importante e inerente a todos os verdadeiros discípulos ou não que, de forma inevitável, contemplam os mistérios da vida e as revelações divinas contidas na Palavra de YHWH. Neste sentido estrito, podemos afirmar que todos os membros das congregações de YHWH são teólogos, mesmo que ignorem ou até abdiquem desta condição. Se mergulharmos ainda um pouco mais no assunto, e num sentido mais amplo que o acima mencionado, poderíamos dizer que todo indivíduo de bom senso, que possua um conceito formalizado acerca de um ser divino superior, independente de seu credo, é um teólogo. Cada religião possui a sua “teologia” e o ser discípulo verdadeiro de Yahushua, embora não se trate de participar de uma religião, também tem a sua teologia.

Definindo o termo

     Mas, afinal, o que é teologia? Na perspectiva da teologia acadêmica e histórica, uma resposta objetiva e clássica seria: “fé em busca de entendimento”. Orientados por este significado, perceberemos que o genuíno desígnio da teologia não deve ser o exame da Bíblia, de forma indiscriminada e leviana, para construir doutrinas que justifiquem uma crença. Muito pelo contrário, o teólogo discípulo verdadeiro deve utilizar a teologia para compreender melhor aquilo que previamente expressa o texto bíblico, a despeito das suas crenças.

Os assassinos da letra

     Não obstante a todas estas ponderações, não é difícil encontrar opositores do estudo bíblico entre os mais diversos grupos religiosos da cristandade. Em verdade, esse comportamento é peculiar a muitos deles. Entretanto e lastimavelmente, isso é constatado no seio da “igreja” romana e em suas filhas. Geralmente, o texto áureo e justificativo desse posicionamento encontra-se nas conhecidas palavras do apóstolo Paulo, que dizem: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica”. [2Coríntios 3:6]. Eis aí a questão que lança os fundamentos para a hostilidade de alguns em relação ao estudo bíblico. Pois bem, se o apóstolo Paulo declara que a letra mata então este fato é conclusivo. O que alguns precisam descobrir é quem de fato é essa “assassina”.
     O que nos move a ressaltar este ponto é o fato de que essa “tal letra”, mencionada pelo apóstolo, tem sido alvo de distorções, prejudicando o desenvolvimento do ensino em várias “pseudos congregações”. É verdade que essa objeção ao estudo bíblico é defendida por pessoas sinceras (mas como já vimos em outros estudos, apenas a sinceridade não basta), mas que deliberaram marginalizar o estudo bíblico acreditando ser uma atitude louvada pela Bíblia e pelo Seu Autor.
     É curioso e contraditório, ao mesmo tempo. Mas o fato é que essa tal “letra que mata” vem tendo seu verdadeiro sentido também assassinado por alguns que a tentam interpretar. São aqueles a quem podemos chamar de “os assassinos da letra”. Se você, porventura, se identifica como um dos tais, por favor, não se ofenda! A verdade é que essa repulsa tem no mínimo duas razões para existir. Proponho refletir um pouco mais sobre estas duas questões e depois retornamos ao “homicídio espiritual causado pela letra”, o qual supostamente Paulo teria apregoado.

A marginalização do estudo bíblico

     Quais seriam os fatores que cultivam esta marginalização? Antes de qualquer palavra, é fundamental esclarecer que não é nossa finalidade aqui censurar a devoção autêntica dessas pessoas. A sinceridade de sua fé não está em discussão. Até porque, um dos fatores que mais ajudam a alimentar a rejeição da teologia encontra raízes nos próprios teólogos. Conversando com um missionário, algum tempo atrás, fui interpelado com uma questão que, de certa forma, reflete o julgamento de muitos membros de “igrejas da cristandade” em relação à teologia. Ele questionava por que os teólogos são tão apáticos em sua piedade e testemunho do caminho. Não quero aqui entrar em méritos, como, por exemplo, discutir essa generalização injusta ou o que está escondido atrás do conceito de apatia. Todavia, e inegavelmente, não se exige muitos esforços para identificar comportamentos teológicos que instigam a rejeição da teologia. Esse estereótipo pejorativo parece ser preservado por alguns poucos teólogos, mas acabam por macular toda a classe. O orgulho intelectual, a racionalização vazia, as conjeturas e especulações são tidos como alguns frutos nocivos da teologia. E se torna mais grave ainda quando tais frutos são vindos de pessoas que conhecem as Escrituras e que por isso deveriam proceder totalmente ao contrário. Contudo, em detrimento deste comportamento que, sabemos, não atinge os verdadeiros discípulos comprometidos com a Palavra de YHWH, existem ainda outras objeções alicerçadas no desconhecimento bíblico. Logicamente, é muito mais confortável escolher os mitos e as lendas ou ainda dogmas católicos e até ensinos espíritas do que cultivar uma fé racional (procedente da Palavra de YHWH), pois esta vai exigir uma atitude trabalhosa em busca do conhecimento, enquanto que aquelas conservam os “fiéis nos ensinos de suas denominações” na inércia, fazendo-os concordar, sem qualquer exercício mental, com tudo o que ouvem.
     Outro fator a ser considerado é que o estudo bíblico é marginalizado porque ele incomoda, é inconveniente. É como se fosse uma pedra no sapato dos manipuladores da Bíblia. Quanto menos conhecimento as pessoas possuírem, mais facilmente serão controladas. É um comportamento assumido pelas seitas (filhas de babilônia), nas quais o líder se encarrega de pensar pelos adeptos e implanta um método sutil de controle total.
     Enquanto a teologia se opor aos modismos e ventos de doutrinas que não coadunam com a Palavra de YHWH e que levam muitos “crentes” a fantasias místicas e subjetivas que beiram a heresias, ela continuará sendo menosprezada. cf. (Efésios 4:14-15; 1Timóteo 4:1).

A letra mata?

     Retomando a questão, mas respeitando seu contexto bíblico, alertamos que a letra a que Paulo se referiu não pode ser identificada como sendo o estudo (conhecimento) da Palavra de YHWH. Até porque o apóstolo era um dos doutores da congregação primitiva: “E na congregação que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo (Paulo)”. [Atos 13:1] e jamais poderia pensar assim. Acreditamos que são dispensáveis aqui quaisquer comentários sobre a erudição e a aplicação de Paulo aos estudos. Isso é uma prova cabal dos benefícios da educação no estudo da Palavra! “Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá”. [1Timóteo 4:13]. 
     Acerca de 2Coríntios 3:6, Paulo estava falando sobre a superioridade da segunda aliança sobre a primeira. A morte causada pela letra realmente é espiritual, porém, é bom salientar que se trata de uma alusão ao código escrito da lei mosaica. A lei mata porque demanda obediência irrestrita, mas não proporciona poder para isso. É representada pelas tábuas de pedra, que embora estejam até hoje em vigor (2Coríntios 3:3) devem ser praticadas por aqueles que a receberam de bom grado ao serem chamados, e não como eram aplicadas pelos fariseus no tempo de HaMashiach, pela imposição do legalismo. Por outro lado, o espírito vivifica porque escreve a Lei de YHWH em nossos corações, trazendo-nos a vida em medida muito maior do que realizava sob a primeira aliança. É representado pelas tábuas da carne (3:3). Portanto, como podemos ver o texto comentado não fundamenta, em qualquer instância, a rejeição aos estudos da Palavra de YHWH.

Por que teologia?

     Os teólogos leigos (que não fizeram faculdade secular de teologia), ainda que inconscientemente, se beneficiam da educação teológica. Criticam o estudo teológico, mas lançam mão dele. Todo o legado doutrinário que usufruímos hoje foi preservado por causa do zelo impetrado pelos teólogos que formalizaram a fé por meio de credos, confissões e outras obras e os escreveram. As doutrinas bíblicas sobreviveram ao tempo porque o espírito de santidade de YHWH se encarregou de inspirar e levantar teólogos comprometidos com a fé! O estudo da Palavra de YHWH é um instrumento indispensável para o saudável desenvolvimento da congregação. Todos nós precisamos estudar muito para assim como disse Paulo, quem sabe um dia chegarmos a estatura completa do Mashiach!

Obs.: teologia = estudo da Palavra de YHWH.

     Os estudantes novatos deveriam reconhecer o auxílio que recebem dos estudantes mais velhos e as duas classes representadas, de mãos dadas, deveriam seguir o conselho de Pedro, um estudante que não possuía a erudição de Paulo, mas que conseguiu equacionar a questão ordenando o crescimento na graça e no conhecimento, concomitantemente: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Yahushua HaMashiach. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém”. [2Pedro 3:18]. Dessa forma, o evangelho sairá ganhando e cada membro das congregações estará no seu posto, lapidando o aperfeiçoamento dos santos, para a edificação do corpo de HaMashiach, segundo o ministério que lhe for confiado por YHWH cf. (Efésios 4:11-12).
     Sobretudo, e finalmente, nosso desejo e oração são para que consigamos aplicar o estudo bíblico à nossa vida. Se fracassarmos neste intento, todo o esforço no estudo não será mais que mera futilidade. “Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro; mas a excelência do conhecimento é que a sabedoria dá vida ao seu possuidor”. [Eclesiastes 7:12]; “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Elohim, também eu me esquecerei de teus filhos”. [Oséias 4:6].

Conclusão

Livros: Existiam desde tempos muito remotos abundância de livros. Disse Salomão: “Não há limite para fazer livros” (Eclesiastes 12:12). Moises e Paulo não somente eram literatos, escrevendo ao menos 18 dos 66 livros mais famosos de todos os tempos, eram também, entusiastas pelos livros. cf. (Atos 7:22; 2Timóteo 4:13).

Que YHWH nos guie ao genuíno conhecimento de suas revelações, pelo seu amor, pela Sua Palavra, pelo estudo sistemático das Suas Escrituras, para a Sua glória!

Que assim seja!

Adaptação de texto recebido sem autoria, pelo presbítero Sérgio

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