Postado em 08/06/2009

Assim, ficamos com os dois maiores grupos de textos: o Bizantino e o Alexandrino.

A. O texto-tipo Bizantino

Esse texto recebeu seu nome por ter sido associado, com Constantinopla, a capital imperial, anteriormente chamada Bizâncio. Além disso, ele tornou-se o texto-modelo da Igreja Cristã durante o período bizantino (312-1453 d.C.) e mesmo depois deste. Antes de ser entronizado na capital oriental, entretanto, essa forma de texto foi preservada em Antioquia, capital da província romana da Síria. Os professores cristãos ligados à igreja ali usaram-no claramente. Entre esses incluem-se Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa. Gregório de Nazianzus (“Pais” da Capadócia), Teodoreto de Ciro e Crisóstomo de Constantinopla (que mudou-se de Antioquia para se tornar bispo de Constantinopla, em 398 d.C.).

O texto-tipo bizantino teve o esmagador apoio dos manuscritos gregos. Nos primeiros papiros havia um impressivo número de versões distintivamente bizantinas. P45 e P46, dos Papiros Chester Beatty, contêm tais versões, bem como P66 da coleção da Biblioteca Bodmer. O Professor H. A. Sturz conseguiu relacionar 150 versões bizantinas com apoio dos primeiros papiros. 20 Isso mostra, de maneira plena, contrariamente aos pontos de vista dos críticos literários do passado, que as versões bizantinas podem ser traçadas desde o século II.

Entre os unciais, esse texto é encontrado, no século V, nos Códices Alexandrino (A-02; bizantino nos evangelhos), Ephraemi (C-01) e em praticamente todos os outros códices posteriores. Estima-se que aproximadamente 95% dos manuscritos unciais utilizaram o tipo de texto bizantino. Ainda mais pode ser reinvidicado em favor dos minúsculos, uma vez que quase todas as suas versões são bizantinas.

Os lecionários até agora examinados também apóiam o texto-tipo bizantino.

(1) Apoiado pelas antigas versões.

Essas versões eram as antigas traduções das escrituras do Novo Testamento, preparadas para auxiliar na expansão da fé cristã entre os povos do mundo. Entre as mais antigas estão a siríaca (ou aramaica) e as traduções latinas, que remetem à metade do segundo século. A Peshitta, a “Rainha das traduções”, é uma das mais antigas traduções siríacas e certamente contém versões bizantinas. Isso também se aplica à versão gótica, do quarto século, que se diz Ter sido traduzida por Ufilas, bispo de Antioquia.

(2) Confirmado pelos antigos “Pais”.

Os críticos que negam a primazia do texto bizantino, preferindo vê-lo como uma revisão do século IV, geralmente aludem ao fato de que nenhum “Pai” da Igreja antes de Crisóstomo (347-407 d.C.) parece ter se referido a ele ou, sequer, tenha-no citado. Porém, isso não é verdade. Uma pesquisa cuidadosa mostrou que Justino Mártir (100-165 d.C.), Irineu (130-200 d.C), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Tertuliano (160-220 d.C.), Hipólito (170-236 d.C.) e mesmo Orígenes (185-254 d.C.) citaram repetidamente o texto bizantino. Edward Miller, depois de classificar as citações dos patriarcas gregos e latinos que morreram antes de 400 d.C., descobriu que tais citações apoiavam-se no texto bizantino 2.630 vezes (e, em outros textos, somente 1.753 vezes). Além disso, ao examinar trinta passagens importantes, encontrou 530 testemunhos do texto bizantino (e somente 170 em favor de seus oponentes). Esta foi sua conclusão: “A predominância original do Texto Tradicional é mostrada na lista dos antigos patriarcas. Seu registro prova que em seus escritos, e mesmo na Igreja em geral, a corrupção se fez sentir desde os tempos remotos, mas que as águas puras geralmente prevaleceram... A tradição também é mantida pela maioria dos patriarcas que os sucederam. Não há lapso ou intervalo: o testemunho é contínuo”. 21

O fato evidente é que, por volta do quarto século, o Texto Bizantino já havia emergido como o texto oficial do Novo Testamento e pelos próximos 2.000 anos (e mais) manteve controle inconteste sobre a cristandade inteira.

(3) O Novo Testamento grego impresso.

O Novo Testamento foi impresso pela primeira vez em 1514, embora não publicado numa edição separada até 1522. Obra de Francisco Ximenes, Cardeal Primaz da Espanha, era parte de seu Poliglota Complutensiano, em seis volumes. Na dedicatória ao Papa Leão X, Ximenes escreveu: “Estamos, na verdade, em débito com vossa Santidade pelas cópias gregas, por nos ter enviado, mui amavelmente da Biblioteca Apostólica, os códices muito antigos, ambos do Antigo e Novo Testamentos, que nos ajudaram muitíssimo neste empreendimento”. O texto grego resultante parece ter sido do tipo bizantino (e não há evidência de que Ximenes tenha, alguma vez, seguido o Codex Vaticanus [B]).

Em 1516, quando Desidério Erasmo, o principal estudioso na Europa, publicou a primeira edição do Novo Testamento grego, baseou-se em manuscritos bizantinos característicos. Erasmo publicou outras quatro edições de seu trabalho, em 1519, em 1522, em 1527 e em 1535. Outros logo seguiram seus passos: o mais famoso deles foi Robert Estienne (latinizado como Estéfano), o editor e impressor francês, cujo texto publicado em 1546 era praticamente idêntico ao de Erasmo. Houve três edições subseqüentes em 1549, 1550 e em 1551. Ainda outras edições foram produzidas e impressas por Theodore Beza entre 1565 e 1604. Então, em 1624, Bonaventure e Abraham Elzevir publicaram sua edição. O prefácio da segunda edição de Elzevir, publicada em 1633, contém as palavras: “Portanto, agora se tem um texto recebido por todos, no qual não há alteração ou corrupção”. Por essa razão surgiu a conhecida denominação “O Texto Recebido”.

O Texto Bizantino foi o texto fundamental de todas as grandes Bíblias protestantes inglesas, incluindo aquelas associadas aos nomes de William Tyndale (1525), Miles Coverdale (1535), John Rogers (1537) e Richard Taverner (1539), bem como as conhecidas como a Grande Bíblia (1539), a Bíblia de Genebra (1560), a Bíblia dos Bispos (1568) e, naturalmente, a Versão Autorizada (1611); e, ainda: a Reina, em espanhol; a Karoli, em húngaro; a Lutero, em alemão, a Olivetan, em francês; a Statenvertaling, em holandês; a Almeida, em português; e a Diodati, em italiano.

Resumindo, os argumentos em favor do texto bizantino são os seguintes:

1. Esse texto-tipo está associado à cidade de Antioquia, na Síria. Após a morte de Estevão, os cristãos de Jerusalém fugiram para Antioquia e começaram a pregar o evangelho aos gregos residentes ali (Atos 11.19-20). Uma igreja forte surgiu, principalmente através dos ministérios de Barnabé e Paulo (11.22-26), e foi dessa igreja que o apóstolo partiu para cada uma de suas viagens missionárias (Atos 13.1-3; 15.35-36; 18.22-23). Outros apóstolos visitaram a cidade, incluindo o apóstolo Pedro (Gálatas 2.11-12). Não demorou muito para que Antioquia se tornasse a cidade-mãe das igrejas gentílicas e, depois da queda de Jerusalém, em 70 d.C., transformou-se no inconteste centro do Cristianismo. Um texto procedente de Antioquia seria o texto aprovado pelos apóstolos nos primórdios da Igreja Cristã.

2. Como já observado anteriormente, esse texto recebeu seu nome de Constantinopla (Bizâncio), a capital do Império Oriental, e, em razão disso, logo se estabeleceu como o texto grego padrão. Constantinopla era o centro tanto do mundo como da Igreja de fala grega. Enquanto no Ocidente, o grego havia cedido lugar ao latim, no Oriente permanecia como idioma oficial e de uso comum. Isso significava, naturalmente, que os estudiosos gregos em Constantinopla eram peculiarmente qualificados para reconhecer e reproduzir o texto autêntico.

3. Durante o quarto século, quando esse texto se tornou o principal, a Igreja foi abençoada com estudiosos excepcionais, tais como Metódio (260-312 d.C.), Atanásio (196-373) Hilário de Poitiers (315-67), Cirilo de Jerusalém (315-386) e Gregório de Nazianzen (330-394). Esses homens – e outros como eles – envolveram-se na formulação da doutrina ortodoxa e na ratificação do canon do Novo Testamento. Eles também se devotaram a estudar o texto e tiveram uma vantagem sobre os críticos posteriores, uma vez que tinham acesso a muitos manuscritos antigos e preciosos, que há muito se perderam. A emergência de um texto predominante originário desse período é altamente significativa. Era, obviamente, considerado o texto genuíno, não corrompido e autorizado.

4. Os judeus eram designados os guardiães das revelações divinas a eles concedidas e, no cumprimento da confiança sobre eles depositada, preservaram cuidadosamente o texto do Antigo Testamento, sem corrupção e de forma integral (o texto Massorético hebraico). Como observado pelo apóstolo Paulo, “porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas” (Romanos 3.2). Agora, é razoável supor-se que as escrituras do Novo Testamento fossem confiadas aos cristãos professos ou à professa Igreja Cristã. A questão que naturalmente se levanta é: qual texto-tipo, falando no geral, teria sido reconhecido e propagado pela Igreja desde os primórdios? A resposta: o texto-tipo conhecido como bizantino.

5. O fato é que aproximadamente 90% dos manuscritos gregos representa o texto-tipo bizantino. Embora esses manuscritos não sejam tão antigos como alguns críticos quisessem, são tão numerosos que deve-se assumir que há, literalmente, centenas de documentos ancestrais, muitos dos quais pertenceram às primeiras eras cristãs. De alguma maneira esse fato tem que ser explicado, e não é satisfatório persistir-se na argumentação – contra a evidência de suporte – que o texto bizantino não aparece na história antes do quarto século. Este texto é anterior. Ele tornou-se difundido porque representa o original fielmente.

6. Sempre se tem exercido cuidado providencial em relação à Verdade de Deus, pois os crentes precisam dessa Verdade de forma exata e correta (Mateus 24.35; I Pedro 1.23, 25). Por essa razão, a Palavra dada através da inspiração tem sido a mesma que subseqüentemente foi publicada (Salmo 68.11). É inconcebível que Deus tenha dado um texto totalmente corrompido e mutilado a Seu povo e, então, permita que o texto seja usado por mais de dezoito séculos. Porém, é exatamente isso que alguns críticos literários modernos querem nos fazer acreditar! “Deve-se lembrar”, escreve o Dr. Owens, que a cópia vulgar que usamos (o Texto Autorizado) foi de propriedade pública por muitas gerações...; posto isto, passemos, então, para o modelo, que é reconhecidamente apropriado, e veremos rapidamente, se Deus quiser, quão pouca razão há para imitar tais variações de traduções, com o que também estamos abismados atualmente.” 22

7. É razoável supor-se que Deus agiu de maneira similar em relação aos textos tanto do Antigo como do Novo Testamentos.O Seu método com o Antigo Testamento foi preservar o texto, de forma praticamente inalterada, através de várias gerações. O resultado – como Cristo e Seus apóstolos claramente ensinaram – foi um Livro no qual cada letra e cada parte de letra era sagrada (Mateus 5.18; comparar com João 10.35). Quando esta antiga revelação foi completada, Deus procedeu da mesma maneira: registrou infalivelmente Sua última Palavra, colocando-a em possessão de Sua Igreja e, então, assegurou-Se de que ela seria passada através dos séculos sucessivos, até o tempo presente. “A palavra do Senhor permanece para sempre” (I Pedro 1.25).

B. O texto-tipo Alexandrino

Este é um grupo bem pequeno de manuscritos. Peculiaridades na ortografia mostram que eles estão associados a Alexandria, no Egito e, não é surpreendente, versões desse tipo de texto foram encontradas entre os papiros egípcios antigos (por exemplo, P46, P47). Seus maiores representantes, entretanto, são o Codex Sinaitico (ou Codex Aleph) e o Codex Vaticano (ou Codex B).

O apoio a esse texto-tipo vem dos Pais de Alexandria, mais notadamente de Orígenes (185-254 d.C.) e Cirilo (376-444).

Vários detalhes devem ser observados aqui:

1. Esse texto-tipo origina-se de Alexandria, no Egito. As Escrituras não indicam que jamais tenha havido uma presença apostólica nessas regiões, mas a História da Igreja revela que muitos heréticos famosos viveram e ensinaram ali, incluindo gnósticos como Basilides, Isidoro e Valentino. Qualquer coisa que venha desse lugar deve ser considerada com alguma suspeita.

2. Há clara evidência de revisão pela reorganização de palavras. B. H. Streeter sugeriu que o editor foi um bispo egípcio chamado Hesychius. 23 Isso significa que, embora tenham sido feitas grandes reivindicações, esse texto não pode ser considerado como especialmente “puro”.

3. Os dois grandes representantes desse texto-tipo, os Codices Aleph (Sináitico) e B (Vaticano) são excepcionalmente pobres em qualidade. Quando examinado pelo Dr. F. H. A. Scrivener, o Codex Aleph foi declarado “grosseiramente escrito” e “ repleto de dúzias de erros de transcrição” tais como “omitir linhas inteiras do original”. O codex B, embora, “menos ruim”, mostrou-se “passível de falhas”, cometendo “erros do mais evidente caráter”. 24

4. Esses manuscritos principais exibem suas adulterações ao não concordarem entre si em, literalmente, centenas de lugares (3.000 vezes, somente nos evangelhos).

5. O texto autenticado pelo Aleph (Sináitico) e pelo B (Vaticano) está em discrepância com a esmagadora maioria dos manuscritos gregos. Não somente está restrito a uma muito pequena família de manuscritos, mas estima-se que há algo em torno de 6.000 diferenças entre os textos Alexandrino e Bizantino.

6. É verdade que há expressiva perda de texto no Codex B (Vaticano), porém, considerando-se sua idade (metade ou fim do século IV), esses dois unciais estão em notáveis boas condições. Uma vez que os mais exatos manuscritos dessa época pereceram em razão do uso, deve-se supor que esses foram rejeitados como defeituosos e, portanto, não foram usados pela Igreja.

7. Apoiando essa conclusão está o fato de que somente umas poucas cópias foram feitas a partir deles. Como afirma o Dr. Gordon Clark: “Se um grupo ou dois manuscritos têm um único ancestral, implica que um grupo ou dois copistas criam que aquele ancestral era fiel aos autógrafos. Porém, se um manuscrito não tem uma descendência numerosa, como no caso do ancestral do Codex B, pode-se suspeitar que os antigas escribas duvidaram de seu valor. Possivelmente só antigos cristãos ortodoxos sabiam que o Codex B está corrompido. 25

Críticos Atacam o Texto Bizantino

No último século, dois estudiosos de Cambridge, B. F. Westcott e F. J. A. Hort, elaboraram uma nova teoria radical sobre a primeira transmissão do texto do Novo Testamento. Defendiam que o melhor texto era, realmente, o Alexandrino (o qual denominaram o “Texto Neutro”), representado pelo Aleph e pelo B. Uma vez que esses dois manuscritos eram ligeiramente mais antigos que outros, alegavam que seu ancestral comum estava mais próximo do original inspirado. Embora não se pudesse atribuir ao texto uma pureza absoluta, Westcott e Hort estavam prontos a afirmar: “Cremos (1) que as versões de Aleph B devem ser aceitas como versões verdadeiras até que fortes evidências internas contrárias sejam encontradas; e (2) que nenhuma versão de Aleph B pode, de maneira plena, ser seguramente rejeitada, embora seja às vezes indicado reconhecê-las somente como uma base alternativa, especialmente quando não têm apoio das Versões dos Patriarcas”. 26

O texto Bizantino (chamado de “Texto Sírito”) continha, como eles pensavam, “versões combinantes”, ou seja, combinações de versões mais antigas; eles acreditavam que essas versões haviam sido originadas de uma revisão feita em dois estágios, produzida em Antioquia (ou perto de Antioquia), no quarto século. Admitindo-se que isso era apenas “suposição”, continuaram com a idéia de que “a crescente diferença e confusão dos textos gregos conduziram a uma revisão oficial em Antioquia” e, mais tarde, a “uma segunda revisão oficial”. O processo inteiro, segundo eles, foi completado por volta de 350 d.C. Eles ainda lançaram a idéia de que Luciano de Antioquia (martirizado em 312) devia estar envolvido na primeira revisão.

Essa teoria é seriamente falha. Embora críticos e traduções ainda se refiram “aos mais antigos e melhores manuscritos”, a frase é no todo enganosa porque, nesta discussão particular, os “mais velhos” são, na verdade, “os piores”. Quanto a “versões combinantes” no texto Bizantino, jamais houve nenhuma evidência convincente que apóie essa idéia (mesmo após vinte e oito anos de estudo, Westcott e Hort só puderam apontar oito exemplos). De qualquer forma, versões tardias não provam uma interferência posterior no texto. O Professor Sturz que somente algumas dessas traduções são apoiadas pelos papiros mais antigos (as traduções mais antigas de João 10.19 e 10.31, por exemplo, são apoiadas pelo P66). 27 Isto nos leva a concluir que o engano repousa sobre o texto Alexandrino. Ele ainda acusa o texto Bizantino de ser reduzido. O que dizer sobre a tão falada “Revisão Luciânica”? Não há evidência de que ela tenha acontecido.

Westcott e Hort começaram a tarefa de preparar um texto grego revisado. Por coincidência, eles também faziam parte do comitê, escolhido pela Assembléia de Canterbury, em 1880, designado para preparar uma edição revisada da Bíblia em inglês. Embora o texto grego desses dois estudiosos ainda não houvesse sido publicado, uma cópia foi colocada à disposição dos revisores. Então, quando, em 1881, surgiu o Novo Testamento da Versão Revisada, ficou imediatamente evidente que o texto grego de Westcott e Hort havia não somente influenciado grandemente o comitê mas, também, que ele tinha sido largamente empregado na Versão Revisada do Novo Testamento em inglês.

Este texto Hort/Westcott foi o precursor do que hoje se conhece como texto Nestle/Aland (United Bible Societies), que tem usurpado o lugar do texto Bizantino ou Tradicional e, subseqüentemente, tornou-se a base de praticamente todas as traduções modernas. A Nova Versão Internacional, por exemplo, embora afirme em seu prefácio seguir um texto grego ‘eclético’ (ou seja, uma compilação de uma variedade de manuscritos), continua, imediatamente, a informar o leitor que “onde houve divergência de manuscritos, os tradutores escolheram as versões de acordo com os princípios da crítica textual do Novo Testamento”. A adoção de ‘princípios’ fundamentalmente falhos indica que o texto resultante é muito parecido com o produzido em 1881, por Westcott e Hort.

A Versão Almeida Corrigida Fiel

Durante os períodos da Reforma e dos Puritanos, apareceu uma quantidade de versões protestantes, todas baseadas nos mesmos textos autênticos e traduzidos de acordo com os mesmos princípios incontestáveis.

A BÍBLIA SAGRADA, em Português, é resultado de mais de 350 anos de esforços dedicados, desde quando João Ferreira de Almeida começou o seu trabalho de tradução.

Jovem inteligente, Almeida nasceu em Torre de Tavares, Portugal, no ano de 1628. Aos catorze anos ele já estava na cidade de Batávia (hoje Jacarta, capital da Indonésia). Um dia recebeu um folheto escrito na língua espanhola que o levou ao encontro pessoal com Deus, como “Nicodemos—Saulo de Tarso”. Logo começou a pregar nas Igrejas Reformadas Holandesas (a maior parte do povo, a quem ele ministrava, falava português, pois só fazia um ano que Portugal havia perdido o controle da região).

No ano de 1644, com a idade de 16 anos, Almeida iniciou a sua primeira tradução do Novo Testamento, usando versões em latim, espanhol, francês e italiano. Não contente com essa tradução, anos mais tarde, ele fez uma segunda, desta vez baseada no texto grego, o Textus Receptus (o mesmo usado pelos reformadores). Num folheto chamado Cartas para a Igreja Reformada, em 1679, ele escreveu o seguinte, na conclusão daquela obra, que só foi publicada em Amsterdã, no ano de 1681:

“O Novo Testamento, isto é, todos os sacrossantos livros e escritos evangélicos e apostólicos do Novo Concerto do nosso fiel Senhor, Salvador e Redentor Jesus Cristo, agora traduzidos em português por João Ferreira d’Almeida, pregador do santo Evangelho”.

Almeida chegou a traduzir o Velho Testamento, de Gênesis até Ezequiel 48:31, usando o texto Massorético (hebraico). Não pôde terminar os últimos versículos do livro de Ezequiel, porque faleceu em 1691, com 63 anos de idade. O volume I do Velho Testamento, contendo os livros de Gênesis a Ester, foi impresso no ano de 1748. O holandês Jacobus op den Akker completou a obra da tradução do Velho Testamento e, em 1753, o volume II foi publicado.

A primeira revisão da Bíblia em português, feita pela Trinitarian Bible Society (TBS—Sociedade Bíblica Trinitariana), foi iniciada no dia 16 de maio de 1837. O Rev. Thomas Boys, do Trinity College, Cambridge, foi encarregado de liderar o projeto. A revisão do Novo Testamento foi completada em 1839. A revisão completa do Velho Testamento só terminou em 1844. O último volume foi impresso em Londres, no ano de 1847. Aquela primeira edição, chamada Revista e Reformada, sofreu revisões ortográficas posteriores, feitas tanto pelo Rev. Boys como por outros, tornando-se, inclusive, uma parte da edição chamada Correcta. Segundo os dados históricos, a edição Revista e Reformada também fez parte do leque das várias revisões que foram usadas para chegar à versão conhecida como a Corrigida. Restou do frontispício da primeira impressão da tradução de Almeida pela TBS uma expressão, “Segundo o original”, ou, em outras palavras, “Fiel aos textos originais”.

No ano de 1968, em São Paulo, foi fundada a Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, com o objetivo de revisar, com as devidas correções ortográficas, e publicar a Bíblia de João Ferreira de Almeida, como mais um instrumento nas mãos de Deus para a preservação da Sua Palavra.

A Bíblia na Edição Corrigida e Revisada, foi preparada por pessoas com a mesma convicção do tradutor, João Ferreira de Almeida, de que as palavras das Sagradas Escrituras, originariamente escritas em hebraico, em aramaico e em grego, foram inspiradas por Deus; e, uma vez que Deus preserva a Sua Palavra, as Sagradas Escrituras falam com nova autoridade a cada geração, levando as pessoas à salvação, fazendo com que sirvam a Cristo para a glória de Deus.

Há séculos, a tradução de Almeida tem sido a preferida da grande maioria dos leitores da Bíblia em língua portuguesa. Indiscutivelmente, continua sendo. Almeida seguiu o sistema de tradução chamado “equivalência formal”, assim como fizeram os grandes reformadores; ou seja, tentou traduzir cada palavra, usando o mínimo de palavras de transição, necessárias para garantir a fluência da leitura em português.

É possível dizer que João Ferreira de Almeida é o tradutor mais amado e respeitado; pode-se dizer também que a versão mais respeitada e procurada é a Corrigida. Embora os editores, que publicam as edições denominadas Corrigida, tenham variado na liberdade de modificar ou até de tirar uma palavra ou outra, mesmo assim, todas elas são praticamente idênticas.

Como Almeida, os editores deste texto, a Edição Corrigida e Revisada, Fiel ao Texto Original, também conhecido por Almeida, Corrigida, Fiel (ACF), todos crêem que as palavras da Bíblia foram inspiradas por Deus.

“Toda a Escritura é divinamente inspirada...” (II Tm 3:16).

Por essa razão, os editores do texto bíblico gastaram anos, com dezenas de revisores, na produção do texto, objetivando modificar o mínimo possível, conquanto corrigissem a ortografia e tirassem qualquer influência do Texto Crítico do Novo Testamento que fora introduzida indevidamente ao trabalho de Almeida.

Malcolm Watts, membro do Comitê Geral da Trinitarian Bible Society, nasceu em 1946, em Barnstaple, North Devon, Inglaterra. Criado num lar cristão, converteu-se pela graça em sua adolescência e, mais tarde, foi chamado para o ministério. Estudou no Londo Bible College entre 1967 e 1970 e, desde 1971, é pastor da Emmanuel Church, em Salisbury. Ele e Gillian casaram-se em 1976 e têm duas filhas: Lydia e Naomi.

por Malcolm Watts

site da SBTB, http://biblias.com.br/deupalavr.asp

Notas

1 BANNERMAN, James – Inspiration: the Infalible Truth and Divine Authority of the Holy Scriptures (Edimburgo: T&T Clark, 1865), p. 158.

2 GAUSSEN, Louis – Divine Inpiration of the Bible (Grand Rapids: Kregel Publications, 1971. Publicado em Edimburgo em 1842 sob o título Theopneustia: The Bible, its Divine Origin and Entire Inspiration, Deduced from Internal Evidence and the Testimonies of Nature, History, and Science), p. 34.

3 Este era o ponto de vista dos comentaristas mais antigos, como Piscator, Poole, Clarke, Gill e outros. Mais recentemente, foi mantido pelo Dr. Greg L. Bahnsen, em The Inerrancy of the Autographa, um capítulo incluído no simpósio intitulado Inerrancy, editado pelo Dr. Norman L. Geisler (Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1980), p. 167.

4 GREEN, William Henry – General Introduction to the Old Testament: The Canon (Londres: John Murray, 1899), p. 11.

5 Mais informações sobre a condição do texto nesse período podem ser encontradas em “The Transmission of the Scriptures”, de John H. Skilton, em “The Infallible Word: a Symposium by the Members of the Faculty of Westminster Theological Seminary”, terceira revisão impressa (Filadélfia: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1967), pp. 153 e seguintes. Ver, também, “Na Introduction to the Critical Study and Knowledge of the Holy Scriptures”, de Thomas Hartwell Horne, sétima edição (Londres: T. Cadell, 1834), 2:34.

6 NICOLE, Roger – New Testament Use of the Old Testament – in Revelation and the Bible, Carl F.H. Henry, ed. (Londres: The Tyndale Press, 1959), pp. 142-43. Ver, também, os comentários de Walter C. Kaise Jr., The Uses of the Old Testament in the New (Chicago: Moody Press, 1985), pp. 4 e seguintes.

7 Skilton, p. 143.

8 Tertuliano – The Ante-Nicene Fathers, Tertullian – in On Prescription against Heretics – capítulo 36 (Grand Rapids: William Eerdmans Publishing Company, 1979), 3:260.

9 O Dr. A.Cleveland, que editou as obras de Tertuliano a partir da edição original de Edimburgo, admite, numa nota de rodapé, que a “frase muito discutida” (‘seus próprios escritos autênticos’) pode se referir aos autógrafos ou aos originais gregos”. Entretanto, ele crê que “provavelmente” a referência é às “cópias íntegras” (não mutiladas). Edward Miller (que editou várias das obras do Reitor Burgon), parece crer que Tertuliano estava se referindo aos manuscritos originais. Ele escreveu: “Tertuliano, numa discussão com os hereges, convida-os a consultarem os autógrafos dos Apóstolos em Corinto, ou em Tessalônica, ou em Éfeso, ou em Roma, onde eles estavam guardados e eram lidos em público” (A Guide to the Textual Criticism of the New Testament [Londres: George Bell and Sons], p. 72).

10 Policarpo – The Ante-Nicene Fathers, Polycarp – in The Epistle of Polycarp to the Philippians – capítulo 12, 1:35.

11 LILLEY, J. P. – The Pastoral Epistles – Edimburgo: T. & Clark, 1901), p. 216.

12 GREGORY, Caspar Rene – Canon and Text of the New Testament (Edimburgo: T & Clark, 1907), p. 309. O Dr. Gregory observa: “Ninguém imaginaria... que somente aquelas cartas e não o livro inteiro do Apocalipse deveria ser enviado às igrejas, pois que o versículo (Apocalipse 1.11) diz que João deveria escrever num livro o que visse, ou seja, as visões que ele teria, e que o enviasse às igrejas” (p. 310).

13 The Ecclesiastical History and Martyrs of Palestine, Eusebius – Ecclesiastical History – volume 3 – capítulo 37. (Loncres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1928).

14 Ibid., Volume 4, capítulo 23.

15 Ibid., volume 5, capítulo 28.

16 Tertuliano, capítulo 38, 3:262.

17 Irineu – The Ante-Nicene Fathers, Irenaeus in Irenaeus against Heresies, volume 5, capítulo 30, secç. 1, 1:558.

18 ALAND, Kurt e Barbara – The Text of the New Testament: na Introduction to the Critical Editions and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism – 2ª edição, 1989. Citado por Bruce M. Metzger em The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration, 3ª edição ampliada (Oxford: Oxford University Press, 1992), p. 262.

19 WARFIELD, Genjamin B. – An Introduction to the Textual Criticism of the New Testament (Londres: Hodder and Stoughton, 1886), pp. 110, 111.

20 STURZ, Harry A. – The Byzantine Text-Type and New Testament Textual Criticism (Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers, 1984), pp. 61 e seguintes, 144 e seguintes.

21 MILLER, Edward in "The Antiquity of the Traditional Text", in BURGON, John William – The Traditional Text of the Holy Gospels Vindicated and Established (Londres: George Bell and Sons, 1896), p. 121.

22 OWEN, John – "Of the Integrity and Purity of the Hebrew and Greek Text of the Scripture", in The Works of John Owen (Londres: The Banner of Truth Trust, 1968), 16:366.

23 STREETER, B.H. – The Four Gospels: A Study of Origins, reviado a partir da edição de 1924 (Londres: Macmillan & Co. Ltd, 1956), pp. 112 e seguintes, 121 e seguintes.

24 SCRIVENER, F. H. A. – Six Lectures on the Text of the New Testament and the Ancient Manuscripts (Cambridge: Deighton, Bell, and Co., 1875), pp. 41, 43.

25 CLARK, Gordon H. – Logical Criticisms of Textual Criticism (Jefferson Maryland: The Trinity Foundation, 1986), p. 15.

26 WESTCOTT, B.F. e HORT, F. J. A. – Introduction to the New Testament in the Original Greek (Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1988. Originalmente publicado por Harper and Brothers, Nova York, 1882), p. 225.

27 Sturz, p. 84.

FIM